A
LENDA DE SADAKO
Esta lenda é baseada em um fato verdadeiro: uma menina
japonesa que apareceu com leucemia dez anos após o
bombardeio de Hiroshima. Para ter esperança de cura, ela se
inspirou na lenda das garças douradas.
Depois de sua morte, seus colegas de classe começaram a
trabalhar seriamente pela paz mundial.
Os autores têm contado essa versão da história em vários
países e nos convidam para ajudá-los a torná-la uma “lenda
viva”, recontando-a sempre que houver oportunidade.
No
Japão, dizem que as garças trazem vida longa e boa sorte. Quando
voam pelas cidades ou pelos campos, parecem sóis dourados
brilhando no céu.
Na
manhã de 6 de agosto de 1945, apareceram milhões de sóis
dourados no céu, mas não eram garças. Era uma explosão... Um
grande estrondo! A primeira bomba atômica caíra na cidade.
Houve
um clarão muito forte, e aqueles que olharam para ela nunca
voltaram a enxergar novamente. Outros desviaram seu olhar. A
cidade estava desmoronando. Tijolos, lajes, concreto e vidro se
estilhaçavam pelas ruas e havia incêndios por todos os lugares.
— O
que é isto?, as pessoas perguntavam perplexas. Os que sabiam
contavam aos que não sabiam.
As
pessoas corriam gritando: “Água, água”, querendo qualquer coisa
para aliviar as queimaduras de suas peles.
No
dia seguinte, havia ainda mais incêndios. Novamente, algo
estranho aconteceu. A chuva veio, mas era negra. A bomba havia
impregnado a chuva com poeira radioativa.
Médicos e enfermeiras foram mortos pela explosão, e os hospitais
foram destruídos. As pessoas ajudavam umas às outras. Muitos
morriam a cada dia. Duas semanas mais tarde, algo estranho
aconteceu novamente. Flores rosas, lilases e brancas
desabrochavam onde nunca haviam sido plantadas. Cresciam em
abundância, na mais estranha mutação de vida, em meio a toda
aquela mortandade.
Aquele dia foi horrível. É claro que muitas pessoas no centro da
cidade morreram. Mas, distante dali, no subúrbio, havia muitos
sobreviventes. Entre eles, uma pequena garota chamada Sadako
Sasaki.
Quando a bomba caiu na cidade, ela tinha apenas dois anos de
idade. Ao crescer, ela continuou se lembrando do terrível dia:
— Por que estão reconstruindo aqueles edifícios?, perguntava. E
ouvia toda a história novamente.
Quando Sadako foi ao Parque da Paz, no dia de celebração da
memória do bombardeio, ela se lembrou de sua avó. Hoje, ela
tinha amigos que visitavam suas avós periodicamente, mas a dela
havia sido morta pela grande explosão. O que Sadako sabia sobre
sua avó vinha das histórias e memórias dos outros.
O
mais difícil na vida atual era receber a notícia de alguém
conhecido que adoecia com a chamada “doença da radiação”, ou
“doença da bomba atômica”, uma forma de câncer causado pela
excessiva radiação no ar. Hoje, muitas pessoas se recuperam de
leucemia, mas, naqueles dias, tudo o que os médicos podiam fazer
era aliviar um pouco a dor. O desenvolvimento da doença
significava morte.
Sadako era saudável, e a coisa mais importante para ela era
correr.
—
Quero fazer parte do time esportivo daqui. Quem sabe posso
participar das Olimpíadas algum dia?, pensava.
Sadako era uma boa corredora. Corria para ir e voltar da escola,
se exercitava e venceu muitas corridas. Acabou conseguindo o que
queria.
Um
dia, estava no meio de uma importante corrida e não se sentiu
bem.
— Não
dormi o suficiente, pensou. Não devo ter comido bem, mas vou
ultrapassar aqueles que estão na minha frente, e tudo vai acabar
bem.
Mas,
naquele dia, Sadako não ultrapassou ninguém. Pior que isso:
desmaiou e, quando acordou, notou que estava na parte do
hospital onde as pessoas são levadas para serem tratadas da
“doença da bomba atômica”.
— Vou
morrer, pensou. Nunca correrei novamente.
Todos
tentavam consolá-la, mas em vão. Sadako sabia muito bem o que
estava acontecendo. Sadako tinha uma amiga, Chizuko, muito
carinhosa e otimista. Chizuko apareceu no quarto do hospital e
foi logo dizendo:
— Sadako, hoje ouvimos uma ótima história na escola. Contaram
que uma garça dourada vive até completar mil anos de idade. E
que, se você dobrar mil garças de papel, elas te trarão sorte.
Olhou
fixamente sua amiga e completou:
— Isso pode até mesmo ajudar você a se curar.
Sadako não se sentia bem. Ela se sentou indisposta, respondendo:
— Isso é besteira. Como é que dobrar pássaros de papel pode
ajudar alguém a melhorar?
Chizuko recuou um segundo, dizendo:
— É só uma história, claro. Mas sei fazer esse origami. Posso te
mostrar como?
— Penso que sim, respondeu Sadako.
Chizuko pegou uma folha de papel quadrada e mostrou à amiga como
fazer as dobraduras, transformando-as em pássaros tão perfeitos
que até moviam suas asas.
Sadako começou a dobrar; a princípio, vagarosamente e, depois,
mais rápido.
Logo,
todos no hospital já sabiam da garota que estava criando mil
garças para se ajudar a recuperar. Traziam-lhe papéis especiais
para origami, às vezes jornais, e até papel de bala ou
chicletes. Sadako dobrava qualquer coisa que tivesse.
Em
pouco tempo, os origamis começaram a se empilhar por todo o
quarto. Sadako pendurou as garças no teto, em um móbile acima de
sua cama. Toda noite Sadako as olhava balançando, até adormecer.
Sadako dobrou mil. Depois começou novamente: mais cem, duzentas,
trezentas...
Um
dia, Sadako acordou muito cansada para dobrar papéis. Segurou
uma garça dobrada pela metade e decidiu escrever “PAZ” em suas
asas. Depois fez um gesto no ar e pediu:
— Voe, querida amiga, voe para muito longe e para muitos
lugares. Vá lembrar às pessoas que nós temos que ter paz no
mundo.
No
dia seguinte, Sadako morreu em seu quarto de hospital. Os amigos
vieram e contaram os papéis dobrados. Faltaram poucas centenas
para que Sadako completasse 2.000. Eles decidiram completar o
milheiro e não pararam aí.
Mais
tarde, arrecadaram 5.395.000 yens e organizaram uma comissão
para construir uma estátua no Parque da Paz.
Essa
estátua se encontra lá até hoje. Crianças enviam suas
fotografias e bilhetes expressando desejos de paz. Quando o
monte atinge o topo da estátua, os funcionários do Parque o
retiram e, no dia seguinte, a pilha começa a se formar
novamente. A estátua tem, na base, uma montanha. No topo, uma
menina de pé, com os braços esticados, segurando uma garça.
Nela, pode-se ler: “Esse é o nosso grito; essa é a nossa oração
para estabelecer a paz no mundo”.
Autores: Eliane Wynne Larry Johnson, citado em Storytelling
Magazine, em julho de 1997.
Tradução: Antônio Claret
Contribuição e adaptação: Cecília Caram